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Na teoria marxista, o lucro do capitalista tem sua origem na mais-valia, um conceito central que organiza todo o edifício teórico do marxismo.

O ponto de partida é a “força de trabalho”, que é entendida como uma mercadoria. Marx parte de uma observação simples: no capitalismo, o trabalhador não vende o produto do seu trabalho, ele vende algo anterior, sua capacidade de trabalhar (a chamada força de trabalho).

Essa força de trabalho vira uma mercadoria como qualquer outra, ou seja, tem valor de uso (serve para produzir coisas) e valor de troca (é comprada por um salário). O valor dessa mercadoria (força de trabalho) é determinado por quanto custa, em média, manter o trabalhador vivo e apto a trabalhar (considerando, idealmente, alimentação, moradia, transporte, formação etc.).

No entendimento marxista, o salário não paga o trabalho, o salário paga o valor da força de trabalho, isto é, o custo socialmente necessário para a reprodução do trabalhador. A força de trabalho tem uma característica única: ela pode produzir mais valor do que custa para ser mantida.

Vejamos um exemplo: se o custo diário para manter um trabalhador for de R$100,00, isso corresponde ao valor da sua força de trabalho. Mas durante um dia de trabalho, o trabalhador produz R$300,00 em valor novo. Temos então um excedente de R$200,00; logo, esses R$200,00 não correspondem ao valor de sua força de trabalho e são apropriados pelo capitalista.

Esse excedente é o que Marx chama de MAIS-VALIA.

O fundamento estrutural do capitalismo é a compra e venda da força de trabalho como mercadoria, o que permite a produção de mais-valia (valor excedente que o trabalho cria) e a sua apropriação, que constitui a condição de realização desse excedente. (Stricto senso, a mais-valia é apropriada no processo de produção e só é realizada quando a mercadoria é vendida, mas Marx vai tratar da circulação em outro ponto de sua obra e perseguir essa ideia extrapola o que estamos tentando explicar aqui).

Marx também descreve essa apropriação em termos de jornada (tempo). Peguemos como exemplo uma jornada de 8 horas: nas primeiras 3 horas, o trabalhador produz o equivalente ao valor de sua força de trabalho; nas 5 horas restantes, ele continua produzindo valor; só que esse valor adicional não corresponde ao valor de sua força de trabalho e é apropriado pelo capitalista. Temos então um trabalho necessário, que reproduz o valor da força de trabalho, e um trabalho excedente, que gera mais-valia. Assim, a jornada de trabalho é parcialmente paga e parcialmente não paga, mesmo que pareça totalmente paga.

Então, respondendo à nossa pergunta, de onde vem o lucro? Para Marx, o capitalista compra máquinas, matérias-primas e força de trabalho, mas as máquinas não criam valor novo; as matérias-primas não criam valor novo; elas apenas transferem seu valor ao produto. No interior da teoria do valor-trabalho, isso nos leva a uma tese central do marxismo: só o trabalho vivo cria valor novo.

Assim, o lucro é a forma monetária pela qual a mais-valia aparece no capitalismo. Ou seja, o lucro não vem da troca no mercado, mas da produção: ele nasce da diferença entre o valor que o trabalhador cria e o valor correspondente à sua força de trabalho. Essa teoria ajuda a entender as formas que os capitalistas podem usar para aumentar a mais-valia e, assim, seus lucros.

A própria mais-valia, dentro do marxismo, é entendida em duas formas distintas, as chamadas mais-valia absoluta e mais-valia relativa. Na mais-valia absoluta, o capitalista aumenta o tempo de trabalho excedente de que se apropria, adotando jornadas mais longas (trabalhar 10h em vez de 8h), menos pausas e mais intensidade no trabalho. Ao aumentar o tempo de trabalho excedente, sem aumentar os salários, o capitalista aumenta a mais-valia que acumula.

É fácil ver exemplos da mais-valia absoluta no mundo real. Vamos citar três: o rígido controle que a Amazon faz das pausas e idas ao banheiro dos funcionários de seus armazéns; a discussão das leis que propõem o fim da escala 6x1 no Brasil, onde o setor empresarial diz que haverá uma quebradeira e necessidade de demissões caso se aprove por lei a escala 5x2, havendo inclusive propostas de adoção da escala 5x2 sem que seja alterada a quantidade de horas trabalhadas na semana, o que, na prática, significa redução nenhuma. Se o trabalhador hoje em escala 6x1 reduzir seu tempo de trabalho para 5x2, sem perda de salário, os capitalistas sabem, mesmo que não versados no marxismo mas de forma intuitiva, que haverá uma diminuição em sua apropriação de mais-valia; e finalmente podemos apontar para as novas leis trabalhistas adotadas na Argentina pelo governo Milei em 2026, onde agora os trabalhadores não têm mais direito ao pagamento de horas extras, que seriam incorporadas em um "banco de horas" e posteriormente convertidas em folgas de acordo com a conveniência do empregador.

Independentemente do exemplo, o padrão é claro: a organização do tempo de trabalho está em disputa, pois dela deriva a apropriação da mais-valia.

Há ainda a ideia de mais-valia relativa, onde se busca reduzir o tempo de trabalho necessário para a produção de bens, sem mudar o salário, pelo aumento de produtividade, adoção de tecnologia e organização do trabalho. Neste cenário, se, numa jornada de 8h, o trabalhador produz o equivalente ao valor de sua força de trabalho em 4h de trabalho, com a adoção de um novo método ou tecnologia, ele passa a produzir esse equivalente em 2h, e agora as 6h restantes viram trabalho excedente.

Na teoria marxista, a mais-valia é o fundamento do lucro, da acumulação de capital e da exploração no capitalismo (em sentido técnico). A mais-valia é o valor produzido pelo trabalhador além do necessário para reproduzir sua própria força de trabalho (sua própria manutenção), e que é apropriado pelo capitalista sem equivalente.



REFERÊNCIAS:


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COELHO, Plínio César. Século 21, leis do século 19: a reforma trabalhista de Milei. BNC Amazonas, 16 fev. 2026. Disponível em: https://bncamazonas.com.br/seculo-21-leis-do-seculo-19-a-reforma-trabalhista-de-milei/. Acesso em: 16 fev. 2026.


AMORIM, Bruno da Silva. Senado da Argentina aprova reforma trabalhista que amplia jornada para 12 horas e cria “salário dinâmico”. Consultor Jurídico, 14 fev. 2026. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2026-fev-14/senado-da-argentina-aprova-reforma-trabalhista-que-amplia-jornada-para-12-horas-e-cria-salario-dinamico/. Acesso em: 15 fev. 2026.


VALERIANO, Maria Luiza. ‘Não abriremos mão de um máximo de 5x2, jornada de 40h e manutenção do salário’, diz Boulos. Terra, 9 fev. 2026. Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/nao-abriremos-mao-de-um-maximo-de-5x2-jornada-de-40h-e-manutencao-do-salario-diz-boulos,f43efbfc90e407c53ce84d9d2e6d1fabvxve42so.html. Acesso em: 14 fev. 2026.


Fim da escala 6x1 elevaria custo do trabalho em 7,84%, diz estudo do Ipea. BrasilAgro, 11 fev. 2026. Disponível em: https://www.brasilagro.com.br/conteudo/fim-da-escala-6x1-elevaria-custo-do-trabalho-em-784-diz-estudo-do-ipea-.html. Acesso em: 13 fev. 2026.


RACIUNAS, Carol; MOLITERNO, Danilo. Baixa produtividade inviabiliza escala de trabalho 5X2, mostra estudo. CNN Brasil, 10 fev. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/baixa-produtividade-inviabiliza-escala-de-trabalho-5x2-mostra-estudo/. Acesso em: 14 fev. 2026.


RODRIGUES, Henrique. Escala 5×2 sem 40 horas é armadilha. Revista Fórum, 17 dez. 2025. Disponível em: https://revistaforum.com.br/politica/escala-5x2-sem-40-horas-e-armadilha/. Acesso em: 13 fev. 2026.


MARX, Karl. O capital: crítica da economia política: Livro I. São Paulo: Boitempo, 2011. ISBN 978-85-7559-548-0. p. 894.


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